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Memórias que cheiram a bolo frito: o envelhecer no campo que caminha com a terra

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O envelhecer no campo é inseparável do trabalho e da vida social. Por Fernanda de Deus Junqueira (*) “O envelhecer no campo não cabe em categorias. O envelhecer no campo nos mostra, portanto, que envelhecer não é apenas um processo individual.

Gerado a partir do texto coletado, sem informações externas.

Veículo
Portal do Envelhecimento (portaldoenvelhecimento.com.br)
Autor
Portal do Envelhecimento
Publicação
18/08/2026 09:00
URL original
https://portaldoenvelhecimento.com.br/memorias-que-cheiram-a-bolo-frito-o-envelhecer-no-campo-que-caminha-com-a-terra/
Coletada em
28/09/2026 14:32 · última verificação 02/10/2026 15:33
Origem
sitemap: sitemap:portaldoenvelhecimento.com.br
Extração
ok · confiança 100%
Classificação
nome do evento 1x no texto; Ibirapuera/Bienal

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CampoMemóriasenvelhecer

Texto coletado

O envelhecer no campo é inseparável do trabalho e da vida social. Nunca significa necessariamente “parar”, mas continuar existindo em relação à terra e aos outros seres.

Por Fernanda de Deus Junqueira (*)

“O envelhecer no campo não cabe em categorias.

Ele é vida em movimento, memória viva e uma forma de existência que insiste em permanecer.”

CONFIRA TAMBÉM:

Envelhecer tem suas singularidades, mas quando acontece no campo essas experiências assumem outras formas de existência, outros ritmos e outros modos de significar a vida. Trata-se de um modo de viver profundamente articulado ao território, ao ambiente e à natureza.

No campo, o tempo não é medido apenas pelo relógio, mas pelos ciclos da natureza, pela sombra do “eitão da casa”. O sol parece nascer mais cedo, e o despertador, como diz minha avó Dona Maurilda, de 74 anos, é o canto dos passarinhos logo às 4h30min da madrugada.

Levanta-se com Vô Pedro, faz-se o café, acompanhado de um “bolo frito” de seu próprio polvilho, preparado por uma receita que carrega histórias de hereditariedade e pertencimento. As galinhas parecem fazer rondas nas portas, os porcos fazem barulho no chiqueiro… E assim, entre o milho, o sorgo e a lavagem reaproveitada da comida do dia anterior, começa o cotidiano.

Esse cotidiano revela algo instigador: o envelhecer no campo é inseparável do trabalho e da vida material/social. Nunca significa necessariamente “parar”, mas continuar existindo em relação com a terra e com os outros seres.

Fotos de Maurilda Souza de Deus, 74 anos, e Pedro Antônio de Deus, 80 anos. Fonte: Fernanda de Deus Junqueira, Fazenda Rodiador, Pindaí/Bahia

Um dos primeiros elementos que o envelhecer no campo nos mostra é que ele não se encaixa facilmente nas categorias formais de classificação do envelhecimento. No campo, envelhecer é continuar fazendo parte da vida cotidiana: cuidar dos animais, preparar alimentos, caminhar longas distâncias, manter relações de vizinhança e transmitir saberes. Esse modo de vida revela que o envelhecer não é ruptura, mas continuidade!

Em uma dessas lidas, recordo em alto tom minha avó Glicéria Rosa, mulher do campo que viveu aproximadamente 94 anos. Seu coração foi se cansando aos poucos, até silenciar. Infelizmente, não houve como registrar toda a sua história. O que restou foram as minhas memórias, de uma neta de 25 anos que aproveitou cada dia ao seu lado e tenta reconstruir esse envelhecer vivido entre trabalho, terra, território e cotidiano. Aqui surge um ponto essencial: o envelhecer no campo é amplamente vivido, e precisa ser mais registrado.

Glicéria Rosa Junqueira, 94 anos, falecida em 15 de fevereiro de 2026. Fonte: Fernanda de Deus Junqueira, Fazenda Dourado, Candiba/Bahia

Nas memórias de Dona Rosa, surgem práticas que não são apenas lembranças, mas formas de conhecimento produzidas na vida cotidiana. O galo “Pió” alimentado na mão todos os dias, as longas caminhadas para buscar água em cacimbas e cisternas, o compartilhamento de alimentos entre vizinhos, o trabalho feminino intenso e muitas vezes invisibilizado, o fiar algodão, produzir roupas e utensílios, a carne de gado e a traíra (peixe) secas ao sol, a alimentação baseada no cultivo próprio (como abóbora, maxixe e feijão catador), o uso de plantas medicinais como cuidado e cura, o fogão a lenha e o forno de tambor como tecnologias de vida, o ovo colhido diretamente do ninho de galinha na capoeira. Essas práticas revelam que o envelhecer no campo também é produção de saberes práticos, coletivos e territoriais. Envelhecer não é apenas acumular anos, mas acumular experiência que se transforma em conhecimento vivido.

Outro elemento importante é a relação com o tempo. No campo, o tempo parece se expandir. O visitar vizinhos era frequente, as relações eram mais próximas e o cotidiano se fazia em maior presença coletiva. Hoje, inevitavelmente, surge a pergunta: o tempo mudou ou foi a vida que se acelerou? Essa pergunta não é apenas nostálgica, mas revela uma transformação social profunda, marcada pela redução dos espaços de convivência e pela intensificação dos ritmos de vida contemporâneos.

É importante também reconhecer que esse envelhecer não é homogêneo nem idealizado. Ele é atravessado por desigualdades, muitas vezes sem reconhecimento social e sem políticas públicas específicas para aquele lugar. Assim, o envelhecer no campo também revela estruturas históricas de desigualdade, ao mesmo tempo em que evidencia a força e a permanência dessas pessoas na sustentação da vida cotidiana.

O envelhecer no campo nos mostra, portanto, que envelhecer não é apenas um processo individual. É uma experiência social, territorial e cultural profundamente enraizada na vida cotidiana. Ele nos ensina que existem outras formas de viver o tempo, o corpo e a memória. Talvez o que ainda não saibamos sobre o envelhecer no campo seja justamente isso: ele não cabe nas categorias formais com as quais costumamos pensar o envelhecimento. Ele é vida em movimento, memória viva, trabalho que continua sendo vida e uma forma de existência que insiste em permanecer, mesmo quando não é plenamente vista.

(*) Fernanda de Deus Junqueira – Mestranda do Programa de Pós-Graduação em Educação e Formação Docente (PPGEduF). Pós-graduada em Educação Ambiental / Docência do Ensino Superior / Metodologias Ativas pela Universidade do Estado da Bahia – UNEB (Campus XII). Coordena o projeto “Velhices (in)visibilizadas do território: saberes socioambientais e modos de viver de idosos rurais como base para políticas de um envelhecer no campo”, contemplado na 5ª edição do Edital Acadêmico Envelhecer com Futuro no ano de 2026. E-mail: deusjunqueirafernanda@gmail.com.

Nota

Este artigo é um recorte da pesquisa “Velhices (in)visibilizadas do território: saberes socioambientais e modos de viver de idosos rurais como base para políticas de um envelhecer no campo”, selecionada na 5ª edição do Edital Acadêmico de Pesquisa: Envelhecer com Futuro, realizado pelo Itaú Viver Mais em parceria com o Portal do Envelhecimento e Longeviver. Resultados da pesquisa serão apresentados durante o III Congresso Internacional Envelhecer com Futuro , a ser realizado de 25 a 26 de setembro no Pavilhão da Bienal (Ibirapuera/SP), dentro do evento Fórum Festival Longevidade. As inscrições são gratuitas e estão abertas.

Foto de destaque: Kadir Altıntaş/Pexels.

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